segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Candomblé questiona Neto

A perseguição dos evangélicos da Igreja Universal do Reino de Deus (Iurd) à comunidade do candomblé foi citada ontem durante conversa entre o candidato ACM Neto (DEM) e líderes do Terreiro da Casa Branca, um dos mais tradicionais e o primeiro a ser tombado na Bahia. Depois de ser recebido pela ialorixá da casa, Altamira Cecília, a Mãe Tatá, ACM Neto foi questionado sobre sua posição política em relação ao povo de santo, já que seu vice, Márcio Marinho (PR), é bispo da Universal.
O candidato petista, Walter Pinheiro também foi apontado por ter se esquivado às câmaras fotográficas quando visitou o Terreiro Alaketu, de Mãe Jojó; e o prefeito-candidato João Henrique Carneiro (PMDB) foi citado como o gestor que permitiu a demolição, pela Sucom, do terreiro Oyá Onipó, de Mãe Rosa, no Imbuí. O povo de santo só poupou os candidatos Antônio Imbassahy (PSDB) e Hilton Coelho (PSOL).
"Sou de Oxóssi, por isso sou direto. Eu não voto em você porque sou do candomblé e seu vice é da Igreja Universal, que persegue a minha religião. Quero que você se posicione diante disso, qual é a sua proposta diante do povo de santo?", questionou de forma enfática o ogã Antonio Luiz Figueiredo, vice-presidente da Associação do terreiro. ACM Neto, que tão logo chegou ao terreiro foi informado de que seria recebido porque seu avô, senador Antonio Carlos Magalhães, ajudou os candomblés de Salvador, saiu em defesa de seu plano de governo ecumênico e de Márcio Marinho.
Defesa - "Ele (Marinho) é uma pessoa muito tolerante, compreensiva e tem agregado muito na nossa caminhada. Não posso exigir dele que repense a sua doutrina, da mesma forma como ele respeita minhas convicções. Não vejo problema dele não estar aqui. O pensamento de prefeito, caso eleito seja, é o pensamento da diversidade", disse Neto. Mas outro ogã, Willys Andrade, tomou da palavra apontando uma contradição na fala do candidato democrata. "Talvez pelo fato dele não estar presente seja contraditório à questão da diversidade. Eu esperava que o vice-prefeito estivesse aqui".
Neto discordou ao alegar que "toda a expectativa tem de girar em torno do prefeito, que é quem decide", e chegou a confessar que sequer pensou em convidar o bispo para a visita, porque conhece suas convicções. "Se eu dissesse para vir estaria contrariando a minha diversidade".
O ogã Willys disse, ainda, que conhece muita gente do candomblé que até gostaria, mas não votará em Neto por causa do vice, o que foi avalizado por algumas senhoras do candomblé que participavam da reunião.
ACM Neto preferiu defender que tem procurado mostrar que, desde os tempos de seu avô, "há uma história e tradição de respeito a todas as religiões". O ecumenismo é, inclusive, um dos pontos enfatizados pelo candidato na propaganda eleitoral nas emissoras de TV.
Na prática, ACM Neto diz que se empenha para cumprir esse princípio. Ontem mesmo participou de uma missa na Igreja da Piedade; ao meio-dia esteve no terreiro da Casa Branca e no final da tarde teve encontro com evangélicos da Igreja Universal, que reuniu cerca de 6 mil pessoas, segundo a coordenação da campanha do candidato.

Fonte: A Tarde On Line

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segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Documentário sobre sincretismo religioso estréia nos cinemas

Estreou na sexta (15) o documentário "Devoção" de Sergio Franz. O filme desenvolve o tema do sincretismo religioso entre candomblé e catolicismo a partir de duas personagens de suas tradições: o orixá Ogum e Santo Antônio de Pádua.O filme foi todo realizado no Rio de Janeiro, tendo como principais locações o Convento Santo Antonio e os terreiros cariocas. Os depoimentos de ialorixás, freis, babalorixás, padres e devotos vão emoldurando a história dos escravos africanos que desembarcavam no Brasil e eram obrigados a seguir a religião católica. O diretor faz um "ping-pong" entre as cenas, mostrando os ritos do Candomblé e da Igreja. Dos atabaques, guizos, dança e colorido dos terreiros para os dourados das Igrejas, os cantos melodiosos, coro e violão. O expectador é jogado de um lado e outro como que "experimentando" os dois ambientes rituais.Especialmente interessante é o depoimento da ialorixá francesa com doutorado na Sorbonne - Gisèle Omindarewá Cossard. Mulher de diplomata, Omindarewá morou muitos anos na África, mas foi no Brasil que ela se aprofundou no Candomblé. A francesa - "branca azeda" - com dois olhos azuis, zela e cuida de orixás e devotos de "cultura de preto". Sincretismo ou inculturação? O Candomblé hoje tem devotos de várias etnias - segundo depoimento no filme, o Candomblé se universalizou, não é mais uma religião de afro-descendentes.Pelo lado católico, o documentário enfoca os depoimentos dos religiosos franciscanos e de devotos de Santo Antonio, que narram os milagres realizados em suas vidas. Ele é o santo mais popular no Ocidente.Embora haja a aproximação entre Ogum e Santo Antonio, o discurso das autoridades é único: Ogum é Candomblé, Santo Antonio é catolicismo - não são a mesma "pessoa" e não representam a mesma "força". Como diz a música: "ado, ado, cada um no seu quadrado..."
Fonte: http://www.sidneyrezende.com

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domingo, 17 de agosto de 2008

Obá de Xangô nos braços de Olorun

A notícia relâmpago - morte de Caymmi - veio no tapete mágico voador. Perdida na contemplação do pé de damas-da-noite, transportei-me ao velho Opô Afonjá de Mãe Senhora dos grandes e inesquecíveis obás, os ministros de Xangô, já nos braços de Deus-Olorun: Jorge Amado, Miguel Santana, Camafeu de Oxóssi, Dmeval Chaves, Carybé... Agora Dorival Caymmi, o menestrel vanguardeiro.
Mãe Aninha, a fundadora do Axé, auxiliada por Martiniano Eliseu do Bonfim, criara, nos 1930, o corpo de obás: os ministros de Xangô, responsáveis pelos caminhos de seu candomblé de São Gonçalo do Retiro. Quase duas décadas mais tarde, sua filha espiritual Mãe Senhora de Oxum introduziu os "otum" e "ossi" de cada obá de Xangô. Otum significa direita; ossi, esquerda, o que é freqüente na complexa hierarquia dos terreiros. São os assessores imediatos.
São 12 os obás-ministros de Xangô, o orixá da justiça e poder em exercício, o mais popular do panteão das divindades nagôs: obá aré, obá abiodum, obá cacanfô, obá telá, obá odofim, obá xorum, obá aressá, obá onikoiy, obá olubom, obá erim, obá onãxocum, obá arolu. Os primeiros seis são os chamados "obás da direita": com direito a voz e voto e, também, de tocar o xeré, sino sagrado de Xangô. Os demais são os "obás da esquerda", apenas com direito de voz; somente pegam os xerés na ausência dos primeiros. Não confundam os obás da direita e da esquerda com os "otum" e "ossi" de cada obá.
Dorival Caymmi era obá onikoiy, confirmado por Mãe Senhora há mais de quatro décadas. O cantor e ex-ministro da Cultura Gilberto Gil é otum-obá onikoiy: com a morte de Caymmi, ascende ao posto de obá onikoiy. Os obás são escolhidos diretamente por Xangô: os responsáveis pela manutenção da tradição e guardiães dos bons costumes.
Conheci Caymmi no Axé, em meados dos 1980. O venerando obá ficou mais de 15 dias em São Gonçalo, passando a limpo sua vida espiritual. Era comum vê-lo tocando violão perto do velho pé de iroco, vizinho à casa de Xangô. Bati papos gostosos com o impressionante artista que, no terreiro, comportava-se como outro qualquer: especial por ser filho de Xangô e obá de Xangô, não mais do que semente que deu certo perto de cascata de águas límpidas.
Pela manhã, conversando com Mãe Carmem, a ialorixá do Gantois, por telefone, com saudade nos lembramos da famosa canção Oração de Mãe Meninha, cantada pelas grandes vozes da MPB. Mãe Carmem me relembrou que todos os filhos de Caymmi são iniciados no Gantois, no tempo de sua falecida mãe, daí os laços de obá onikoiy com a impressionante comunidade da Federação.
O orun está em festa. São muitos a receberem o menestrel de Xangô: Carybé, Jorge Amado, Camafeu, Mãe Senhora, Mãe Menininha, Carmen Miranda e tantos outros também sementes de primeira ao lado de um manancial de água cristalina. Olorun kossi purê obá onikoiy.

Fonte: A Tarde On Line

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Postado por Administrador às 8/17/2008 0 comentários

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Terreiro cobra R$ 250 mil como indenização



A polêmica entre o terreiro Oyá Unipó Neto - que foi demolido parcialmente, em fevereiro deste ano, por ordem da Superintendência de Controle e Ordenamento do Uso do Solo do Município (Sucom) - e a Prefeitura de Salvador ganhou mais um capítulo. Em um encontro com a imprensa, nesta segunda-feira, 11, na sede do Centro de Estudos das Populações Afro-Indígenas-Americanas da Uneb (Cepaia), a ialorixá do templo religioso, mãe Rosa de Oyá, voltou a cobrar do poder público a reparação de objetos e assentamentos sagrados. O valor reclamado é R$ 250 mil.
Já a Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal da Reparação (Semur), aponta como entrave a falta de um parecer que justifique este valor. Acompanhada do presidente da Associação Brasileira de Preservação da Cultura Afro-Ameríndia (AFA), Leonel Monteiro, mãe Rosa afirma que o ressarcimento dos assentamentos foi uma promessa do prefeito João Henrique. "A Prefeitura diz que a cultura negra é uma das marcas da cidade, mas como é que fica a destruição de um espaço onde se cultua essa ancestralidade? Não estamos só falando de religião", acrescentou a ialorixá.
A reparação física do terreiro já foi concluída, mas, segundo Leonel Monteiro, os R$ 250 mil são necessários para a compra de materiais utilizados nos rituais religiosos que necessitam ser feitos novamente. Deste valor, de R$ 40 a R$ 50 mil seriam para aquisição de louças onde são depositados preparados sagrados.
O custo dos itens necessários para a consagração religiosa (rituais de fundamento), de acordo com ele, envolve compra de animais, roupas, além da estada de sacerdotes durante um tempo prolongado na casa. "Estamos falando de assentamentos ligados às divindades, mas também de consagrações relacionadas aos filhos-de-santo. O prefeito não está cumprindo o que prometeu", disse Monteiro.
Outra crítica é o que Monteiro e mãe Rosa consideram demora na desafetação do terreiro, ou seja, a desapropriação da área onde ele foi erguido para ser doada à representação civil da casa. A medida deve ser votada pela Câmara Municipal, onde o projeto de lei para este fim se encontra. Para o diretor do Cepaia e doutor em antropologia Vilson Caetano, falta maior empenho dos poderes públicos para resolver questões como as que envolvem o Oyá Unipó Neto. "Os órgãos que vêm se colocando como representantes das populações negras, tanto os do Estado como os do município, têm reagido de forma tímida. Os cultos de matriz africana são um indício do universo africano que se reorganizou no Brasil e, inclusive, estão protegidos pela Constituição", completa.
Dificuldade - O secretário municipal da Reparação, Sandro Correia, disse que há empenho do poder municipal em resolver o problema com o Oyá Unipó Neto, mas cobra parâmetros para questões, como o valor pedido para reposição dos assentamentos. "Nós temos procurado realizar os acordos, mas não há um parecer técnico de um órgão como o Ministério Público, por exemplo, que faça um cálculo dos materiais. Estamos tratando de recursos públicos e temos que ir com muito cuidado". Segundo o secretário, o terreiro deve preparar um documento oficial com detalhamento de custos. "Só então poderemos avançar mais neste sentido", completou Correia.
De acordo com a Assessoria de Comunicação da Câmara Municipal, o projeto de lei para a regularização da área do terreiro espera a análise da Comissão de Constituição e Justiça e Redação Final. Só após esta etapa ele irá para o plenário. A previsão é que o parecer fique pronto até a próxima semana.


Fonte: http://www.palmares.gov.br

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Postado por Administrador às 8/12/2008 0 comentários
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