RIO - A Faetec emitiu um comunicado oficial ontem pedindo desculpas publicamente ao aluno Felipe Gonçalves Pereira, de 13 anos. Em junho do ano passado, o adolescente foi expulso da sala de aula aos gritos de "filho do capeta" pela professora. Desde então, está em tratamento psicológico.
Assinado pela professora Maria Cristina Lacerda, vice-presidente educacional da Faetec, o documento afirma que a escola abrirá uma sindicância:
- Nós repudiamos qualquer tipo de preconceito. Incentivei a regulamentação do Núcleo de Estudos Étnico-Raciais e Ações Afirmativas. O fato ocorreu e a diretora tomou ações pedagógicas. Infelizmente, não tínhamos ciência que o caso não tinha sido resolvido.
Preconceito na aula
A secretária municipal de Educação, Claudia Costin, afirmou que, durante suas visitas às Coordenadorias Regionais de Educação tem deixado claro o princípio de uma escola pública laica, em que não há pregação e intolerância religiosa.
- A religiosidade deve entrar em sala de aula como cultura geral, numa aula de história, por exemplo, e não como pregação. É condenável que pais, alunos e professores tenham preconceito. O professor que discriminar o aluno sofrerá sindicância, se ele for a vítima de discriminação deve enfrentar a situação como uma oportunidade educacional para orientar um aluno que, geralmente, repete atitudes aprendidas dentro de casa. O pai deve ser advertido e, em casos mais graves, a autoridade policial deve ser chamada.
A secretária estadual de Assistência Social, Benedita da Silva, repudiou os atos, mas decidiu aguardar a sindicância. A Secretaria estadual de Educação explicou que o ensino religioso é oferecido apenas aos alunos que desejam ter a disciplina e que as aulas são voltadas para cada fé.
Após sete meses lutando e remoendo o preconceito contra seu filho, finalmente Enedi Andréa Gonçalves Ranito, de 35 anos, pôde tirar um pouco do peso da discriminação das costas.
- Estou sentindo que começa a ser feita Justiça. Não é fácil ver um filho ser agredido e não poder fazer nada. Sabia que a discriminação era crime, mas não entendia as leis, não sabia o que fazer. Agora, não estou mais me sentindo sozinha. Estou protegida - disse Andréa.
Felipe, finalmente, também sentiu-se aliviado:
- Agora, estão fazendo Justiça. Sinto pena e raiva da professora. Ainda não esqueci. Crianças têm que denunciar a intolerância, isso fará bem à nossa religião.
Nota contra a intolerância
Leia, na íntegra, o comunicado da Faetec, assinado pela professora Maria Cristina Lacerda, vice-presidente educacional da Faetec:
"A Faetec vem de público pedir desculpas ao aluno Felipe Gonçalves Pereira, familiares e a toda comunidade religiosa do Candomblé, pelo fato ocorrido nas dependências de uma de suas unidades escolares. Devemos esclarecer que esta gestão adota, desde 2007 quando assumiu, uma política de reconhecimento e respeito a todos os grupos étnicos, raciais e religiosos, repudiando qualquer forma de preconceito/discriminação. Inclusive em 8 de agosto de 2007, através da Resolução Conjunta SECT/FAETEC n 03 foi regulamentado o Núcleo de Estudos Étnicos Raciais e Ações Afirmativas (NEERA) com o objetivo, dentre outros, de desenvolver valores éticos e ações para combater o racismo, o preconceito e outras formas de discriminação e Violações de Direitos Humanos na rede Faetec. Quanto ao caso do aluno Felipe Gonçalves Pereira, ações pedagógicas foram tomadas e uma sindicância irá apurar administrativamente a questão".
Fonte: http://extra.globo.com
domingo, 1 de fevereiro de 2009
Escola onde estudante sofreu discriminação religiosa pede desculpas ao aluno
Demonização de figuras do candomblé foi construída desde a chegada do colonizador português à Africa
RIO - A demonização de figuras do candomblé, especialmente de Exu, já se tornou um traço marcante da sociedade brasileira. Essa idéia foi construída desde a chegada do colonizador português à África. Veja a terceira parte da entrevista com o pesquisador Reginaldo Prandi:
Por que a figura de Exu foi demonizada no Brasil?
A demonização começa na África com a chegadas dos europeus. O exu já na África sofre grande sincretismo. Como é o orixá mensageiro do panteão foi sincretizado com outra entidade Elegbara, o mensageiro do panteão dos povos fon, que deram origem ao Jeje brasileiro. Elegbara é o deus com funções de reprodução. Logo, seu culto tem imagens fálico, falos eretos. Todas as religiões panteístas têm divindades importantes ligadas à reprodução humana e à fertilidade do solo, a fartura dos alimentos. Essas funções de Elegbara foram passadas para Exu.
E quando começa a associação de Exu ao diabo católico?
Quando chegaram os primeiros colonizadores europeus aos territórios africanos, se depararam com o culto de orixás e voduns (divindades fons). Esses missionários cristãos tinham objetivos de "cristianizar o mundo selvagem". Quando viram altares de forma fálica, atribuíram a algo demoníaco. O catolicismo é uma religião que aboliu a sexualidade do horizonte humano, de profunda repressão. Exu recebeu a pecha de diabo e não se livrou.
Qual a característica de Exu no candomblé?
No candomblé, não há idéia de bem e mal como coisa inconciliável. Quem faz essa oposição é o mundo cristão. Para o afro, o bem e mal são faces da mesma moeda e estão presentes em todas as coisas. O Exu deve ser pago pelo seu trabalho como todo deus mensageiro em qualquer tradição religiosa. Quando qualquer orixá é evocado, antes se evoca Exu, porque sem ele não há a comunicação com as divindades. ele antes em qualquer lugar, se exu não participa não há comunicação.
Existiam outros deuses com essa função em outras culturas?
Lar, palavra que hoje significa domicílio, casa, é um antigo deus cultuado por povos da peninsula itálica. As pessoas tinham em casa altares com falos eretos. Eram tratados com profundo respeito porque a reprodução e a sexualidade são consideradas fontes da vida. Esse deus que protegia, presidia a sexualidade que permitia a reprodução e o fluxo de alimentos através da fertilidade da terra é responsável pela sobrevivência humana.
Há outros aspectos demonizados em Exu?
Para o mundo católico, Exu trabalhar por dinheiro é uma coisa horrível e própria do mal. O sincretismo foi juntando características entre os santos cristãos e os deuses afro. Iemanjá, a grande mãe por excelência, foi associada a Nossa Senhora. Oxalá a Jesus Cristo. E sucessivamente. Faltava um diabo entre os orixás e o candidato por excelência foi Exu.
Outras culturas que receberam povos afro procederam assim?
Em Cuba, o Exu é chamado de Eleguá, vem de Elegbara, e foi sincretizado com o Menino Jesus. Um sincretismo completamente oposto. Tanto que em Cuba muita gente é filha de Eleguá, enquanto no Brasil é raro ter filho de Exu. As pessoas morrem de medo de Exu. Muita gente que é filha de Ogum, na verdade, é filha de Exu. Em Cuba, a função da sexualidade é atribuída a Xangô que tem símbolos fálicos, como o taco de baseball. Xangô quando dança, fica com o taco nas pernas como se fosse falo ereto.
E a figura da pombagira?
A mentalidade católica acredita que a mulher é a grande pecadora, a fonte de pecado desde Eva. Tinha que associar um pouco a figura feminina a Exu. A pombagira acabou sendo a representação mais explícita da sexualidade proibida, perigosa e ao mesmo tempo muito desejada por todos. É uma grande construção cultural e ponto de conflito e perseguição na oposição das religiões evangélicas. São sempre figuras de bordel, associadas a vida desregrada.
Fonte: http://extra.globo.com
Pesquisador das religiões afro no Brasil explica a raiz histórica dos preconceitos contra a umbanda e o candomblé
RIO - Uma das maiores autoridades no estudo das religiões afro no País, Reginaldo Prandi, autor do livro "Mitologia dos orixás", explica a raiz histórica dos preconceitos contra a umbanda e o candomblé e alerta: há um projeto de aniquilação das tradições religionas africanas no Brasil. E elas correm risco de serem extintas. Confira alguns trechos da entrevista:
Como o senhor interpreta a imagem do candomblé na sociedade hoje?
O candomblé tem grande visibilidade no turismo, especialmente na Bahia e sua presença na música popular brasileira e em obras de artistas como Dorival Caymmi e Jorge Amado é muito grande. Mas também tem um aspecto cultural negativo de grande popularidade.
Qual é esse aspecto negativo?
É essa imagem de feitiço, coisa mal-feita e a relação com o diabo, que faz parte do imaginário. Quando as pessoas se referem a algo muito ruim, usam as palavras macumba, despacho, feitiço. É uma realidade superficial e distante da realidade mítica e ritualística de um terreiro.
Por que acontecem tantas disputas religiosas?
Toda religião é uma fonte de verdade e fica muito centrada em si mesma. Se você tem a sua verdade, a do outro está errada. Isso vale de católicos para evangélicos, de evangélicos para afro e até dentro do próprio candomblé. Além disso, algumas religiões tornam a conversão como parte da missão religiosa. Para ser um bom religioso, você tem que trazer para o seu credo e a sua verdade os outros credos que estão todos errados. Religião é uma disputa, por isso há tantas guerras em nome da religião.
Mas algumas religiões são mais tolerantes do que outras...
O candomblé, por exemplo, é religião politeísta (que tem um panteão com vários deuses), como a grega e romana. Não há falta de mérito nisso. Existe a idéia de Deus supremo, criador, mas na maioria dos eventos do dia-a-dia, ele não interfere. Quem cuida do emprego é Xangô, da fertilidade, Oxum, e sucessivamente. As religiões politeístas têm facilidade de assimilar deuses estrangeiros e os trata em posição de igualdade. Embora seja extremamente próprio de cada religião defender a sua verdade como a única e combater a fé alheia, gerando uma grande possibilidade de conflitos e perseguições, o candomblé tem outra prática de aceitar o outro com mais facilidade. Prova disso é o sincretismo. Oxalá, por exemplo, foi sincretizado com Jesus Cristo.
Como o senhor vê o avanço da intolerância religiosa no Brasil?
Como cada denominação das religiões evangélicas se vê como grande verdade levada aos outros pela conversão, o proselitismo é muito grande. O alvo preferencial são os afro-brasileiros. Os católicos também são alvo, mas não se pode dizer que são demoníacos porque são igualmente cristãos. A tolerância não faz parte do universo deles, que não têm outra resposta do afro. O afro pensa que a religião de todo mundo tem algo bom e interessante.
Qual sua visão sobre o futuro desses conflitos religiosos?
Mais de 90% do avanço pentecostal se faz em cima da religião católica e pequena parte em cima dos afro. Mas como são pequenininhos, o pouco que lhes é tirado representa muito. A umbanda está diminuindo de tamanho. Uma quadrilha também pode se associar a um pastor e fechar todos os terreiros. Há favelas em que os terreiros foram extirpados. O Brasil faz de conta que não está vendo. Isso se agrava porque o presidente da República tem relações de simpatia com algumas das igrejas mais agressivas. A umbanda e candomblé não são um parceiro político interessante. Quando entra nessa história é vítima. Já faz 20 anos que a umbanda vem diminuindo e cada vez mais por perseguição evangélica. Se esse processo não é estancado, o que vai acontecer?
Fonte: http://extra.globo.com
Padre e pai-de-santo de Belford Roxo provam que a convivência entra religiões não é sonho impossível
RIO - Quando assumiu a Igreja de São Lázaro, em São João de Meriti, o padre José Carlos Francisco, de 57 anos, ficou impressionado com o estado da imagem do santo. Estava deformada. Na crença popular, o problema era "quizila", chateação de São Lázaro por seu templo ter ficado fechado. O padre não teve dúvidas. Ouviu o conselho de uma amiga mãe-de-santo.
- Ela me mandou limpar a imagem com anil, lavar toda a igreja com a água e depois ainda pôr água com flor de laranja. Anil ia tirar a quizila de Omolu, que é sincretizado com São Lázaro. Lavamos tudo e a imagem ficou perfeita, novinha - conta o padre.
Religião que une
Amigo das nações de candomblé, o padre José é um exemplo de como a religião pode unir, em vez de dividir pessoas de diferentes credos. Há sete anos, ele também reza missas e ministra os sacramentos na Igreja de Nossa Senhora do Carmo, em Belford Roxo.
Construída pelo pai-de-santo Zezito de Oxum, o templo católico fica em frente ao terreiro "Culto Afro Corte Real da Nação Ijexá". Pai Zezito liga pessoalmente para o padre quando tem criança para batizar:
- Graças a Deus, o padre José é uma pessoa muito boa. A gente sempre conversa pelo telefone, fala sobre as missas, ele sempre atende a nossa comunidade.
O padre devolve os elogios do amigo:
- O Zezito é um pai espiritual para mim. Ele sempre me dá muitas orientações. Estou conseguindo reformar a igreja. Com a graça de Deus e dos orixás.
Caridade além das diferenças
Pai Zezito mantém uma escola gratuita para crianças de famílias muito carentes da região. A professora Luana Carvalho, de 31 anos, admira o trabalho social promovido pelo religioso, que também distribui cestas básicas para famílias.
- Nós não misturamos a crença com o ensino. Sou católica e nem entendo nada sobre o candomblé. Às vezes, a criança não comeu nada em casa. Ele dá bolo, merenda todos os dias - diz Luana.
Severo, Zezito exige que os estudantes aprendam a cantar o Hino Nacional e saibam rezar o Pai Nosso.
- É uma oração para gente de todas as religiões. Hoje, em dia, as crianças não sabem rezar, por isso que o mundo está como está - diz o religioso.
Tolerância
Localizado no terreiro, o Poço de Oxum de Pai Zezito já forneceu água para muitos vizinhos. Respeitado, o pai-de-santo, que abriu sua casa aos 14 anos, ainda em Salvador, ri quando lhe perguntam se sofreu algum tipo de intolerância:
- Eles conhecem a pedra que bolem. Lagartixa sabe onde bate a cabeça.
Padre José também não discrimina ninguém na hora de ser chamado para fazer um batizado ou ministrar qualquer outro sacramento. Sempre envolvido em trabalhos sociais com comunidades carentes, o sacerdote já realizou casamento em terreiro de candomblé.
- Gosto de rezar missa no terreiro. Aqui, não tem hipocrisia, gente olhando um a roupa do outro. É fé de verdade, como deve ser - ensina o padre.
Fonte: http://extra.globo.com